
‘América Latina deve dizer que não é serviçal de Trump’
Professor da Universidade Columbia Jeffrey Sachs afirma que presidente dos EUA ‘joga pôquer e blefa’ na guerra tarifária
Crítico frequente de Donald Trump, o professor da Universidade Columbia Jeffrey Sachs defende que os países da América Latina atuem como grupo único para se opor à tentativa de controle dos Estados Unidos, avancem em autonomia estratégica e digam que não são “serviçais”. Sachs participou, no Rio, do segundo encontro da rede de Centros de Pensamento das Américas (Cepas), na sede do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).
No mundo multipolar atual, se a região tiver de escolher entre EUA e China, Sachs sugere a economia asiática, que vai ditar mais o futuro mundial. Para ele, a união regional deve
ocorrer mesmo com diferenças ideológicas. A situação de maior dificuldade nas negociações entre EUA e Irã neste momento, segundo ele, amplia as chances de ataques na América Latina.
Na sua avaliação, o presidente dos EUA está “jogando pôquer e blefando” ao avançar na guerra tarifária e é quase uma caricatura. Embora se apresente como otimista, Sachs tem alertado para risco de uma terceira guerra mundial em função da mentalidade americana de que domina o mundo.
A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:
Valor: Quais os principais desafios hoje da América Latina?
Jeffrey Sachs: Há dois principais desafios, que estão relacionados. Um deles é garantir desenvolvimento mais rápido e inclusivo na região. Os últimos 45 anos foram difíceis. De maneira geral, a América Latina não atingiu o progresso que poderia e deveria. Olhando para a frente, precisamos de alguns avanços. Na minha visão, tecnologia e qualidade da educação são os mais importantes. A região está para trás em avanços tecnológicos: é um usuário, mas não um produtor das tecnologias.
Valor: Qual é o segundo desafio?
Sachs: Lidar com o cenário geopolítico. A Ásia retornou ao centro da economia global e os EUA tentam resistir dizendo aos países da América Latina para ficarem distantes [da Ásia e da China]. A América Latina precisa retomar autonomia estratégica em relação aos EUA para poder dizer, de maneira amigável: ‘Não somos serviçais, não dependemos que nos digam com quem podemos ter comércio ou com quem podemos investir.’ A região deve se organizar, unir forças e dizer educadamente: ‘Faremos negócios com vocês, mas não apenas com vocês.’ Sejam de esquerda ou de direita, pró-Trump ou anti-Trump, vocês são latino-americanos e devem dizer [a Trump] que não pode fazer isso.
Valor: O que está por trás disso?
Sachs: A visão de Trump é que América do Sul, América Central e Caribe pertencem aos EUA, de que esses países devem conceder privilégios, prerrogativas e prioridades aos EUA. Tudo isso, para falar de forma técnica, é bem desagradável. Os EUA não têm direito de ditar o que o resto das Américas faz. Há questões legítimas de segurança. Só que, quando se trata de comércio e investimentos, os EUA não têm direito de dizer ao Brasil, por exemplo, para não negociar com a China. Se a região cair nessa armadilha, vai ficar para trás. Isso pode ser o caso em tecnologia, por exemplo. Os EUA não têm tudo o que o mundo precisa nem são mais tão competitivos em algumas áreas.
EUA assumiram que poderiam fazer o que quisessem, mas a realidade é diferente”
Valor: O senhor vê risco de 3ª Guerra Mundial?
Sachs: A principal razão está nos Estados Unidos, que há 30 anos assumiram que eram a única superpotência e que poderiam fazer o que quisessem. Se quisessem, poderiam instalar bases militares em qualquer lugar, inclusive na fronteira da Rússia, bombardear o Irã e mudar o regime, sequestrar o presidente da Venezuela ou derrubar o governo de Cuba. Essa é a mentalidade dos EUA, mas a realidade é bem diferente. Trump é quase uma caricatura, um desenho animado.
Valor: O governo americano adotou protecionismo. As tarifas têm reequilibrado o poder global?
Sachs: Antes de mais nada, as tarifas de Trump são ilegais. Portanto, devem ser entendidas como táticas de curto prazo que vão desaparecer. Elas não são políticas fundamentais dos EUA. São um jogo que está sendo jogado por um pequeno círculo ao redor do presidente. A Suprema Corte declarou ilegais as primeiras medidas tarifárias, as tarifas recíprocas. E o tribunal de primeira instância acabou de declarar ilegal o segundo conjunto de medidas tarifárias. Agora, isso vai para recurso na Suprema Corte, e o mesmo resultado vai acontecer. Trump está abusando do seu poder.
Valor: Como América Latina deve responder?
Sachs: Esta região deveria dizer: ‘Com licença, senhor presidente, mas o senhor não pode fazer isso.’ Portanto, não é como se esta região simplesmente tivesse que aceitar isso. Há um blefe acontecendo. Trump está jogando pôquer. Não muito bem, na minha visão, mas ele está jogando pôquer e está blefando porque não tem as cartas, como ele gosta de dizer. Ele não tem sequer a lei do seu lado para impor essas tarifas. Um segundo ponto é que, se olhar para o Brasil, quem é o principal parceiro comercial: os Estados Unidos ou a China? A China, de forma esmagadora. Por quê? Porque os EUA são, na verdade, concorrentes do Brasil. O Brasil e os EUA vendem soja para a China e, do ponto de vista dos EUA, querem que a China compre soja agrícola americana, não do Brasil. Mas o Brasil não vende tanto assim para os EUA, então, mesmo que os EUA se tornem protecionistas, isso não importa tanto.
Valor: Mas alguns países acabaram cedendo e negociaram com Trump.
Sachs: Muitos países tiveram dificuldade para entender isso quando as tarifas recíprocas foram aplicadas, embora o mercado dos EUA não fosse tão importante para eles. Mas eu diria que o mercado asiático será muito mais importante para o Brasil no futuro do que o mercado americano. Esse é o mercado principal. Então, se os EUA se tornarem protecionistas, não é uma grande tragédia para o Brasil. É mais um erro dos Estados Unidos.
Valor: O senhor vê as tensões escalando em Cuba a curto prazo?
Sachs: Os Estados estão tentando sufocar Cuba até que entre em colapso total. E se o diretor da CIA vai até você para lhe dar ordens, isso não é um bom sinal. É como ter o agente funerário vindo te encontrar e dizer: ‘Estes são os seus últimos dias.’ As ameaças dos Estados Unidos são muito sérias. Os EUA impuseram, na prática, um bloqueio a Cuba. Eles barraram o petróleo e a eletricidade mal está funcionando. Estão tentando derrubar o governo. Está claro que, à medida que os EUA aprendem que têm limites na vizinhança da Rússia, no Oriente Médio e no Leste Asiático, podem se tornar ainda mais militaristas e mais intimidadores nas Américas.
Valor: O mesmo vale para a Venezuela?
Sachs: Os Estados Unidos não podem governar a Venezuela a longo prazo. E, se a Venezuela se permitir ser governada pelos Estados Unidos, vai se tornar como uma colônia que enfrentará todas as restrições de vender petróleo apenas nos termos definidos pelos Estados Unidos.
Fuente: Valor Económico